Injusto inverno Fim de tarde de sexta-feira, chuva em Porto Alegre, nove graus. Fui colocar o lixo na rua e percebi uma pessoa encolhida e enrolada em uma colcha, tentando se abrigar no pequeno vão da entrada do meu prédio. De um lado, um par de tênis bastante velho. De outro, um saco plástico com latinhas de alumínio. O frio, a chuva e a cena me arrepiaram. Subi as escadas, esquentei um café com leite e levei para o ser que, mesmo naquelas parcas condições, era um humano.
“Moço! Moço!”, chamei para entregar o que preparara. Quando o rosto apareceu sob a colcha, percebi se tratar de uma criança, alguém entre 10 e 13 anos, no máximo. Passei o pote através das grades e um par de mãos ávidas e imundas pela sujeira da rua recebeu a entrega. Liguei para o conselho tutelar e creio que tenham vindo buscar o menor.
Entendo que muitas pessoas, por desilusão, desesperança ou insanidade, podem ter escolhido vagar pelas ruas, catar lixo e pedir esmolas. Mas alguém com tão pouca idade passando frio e fome em um dia rigoroso de inverno, certamente, não teve alternativas. Talvez, nem pais atenciosos e, tampouco, oportunidades.
O final de semana estava começando. Assisti a alguns minutos do horário eleitoral: um amontoado de números e nomes carente de propostas. Pude desligar a tevê sem registrar o que ouvira. Mas não consegui apagar da memória a cena do fim de tarde. |