À vó Flor, com carinho Você lembra que, antigamente, quando voltávamos de férias tínhamos de escrever uma redação sobre algum acontecimento ou lugar interessante visitado no período de descanso, como a casa da vovó? Pois é, eu sempre tinha assunto. Mesmo em zona urbana, minha avó morava em uma espécie de sítio: árvores frutíferas, horta com verduras e legumes fresquinhos, galinheiro e um porco pra engorda no chiqueiro. Sem contar no vasto pátio pra brincar e terminar o dia com a roupa toda embarrada. Aquilo sim era um playground.
O melhor do sítio, sem dúvida, era a minha vó. Dona Flor não teve acesso aos estudos. Aprendeu a ler depois dos 60 anos de idade: foi para o antigo Mobral por vontade própria. Doceira de primeira, esperava as visitas sempre com merengues, uma boa "chimia" e roscas de polvilho assadas no forno de barro. Adorava ter a mesa farta de filhos e netos, pra jogar bingo ou comer uma churrasqueada no domingo. Desde que, na hora do jogo do Grêmio, todo mundo calasse a boca pra ela não perder um só detalhe. Com o radinho colado no ouvido, acompanhava lance a lance. Sabia a escalação do time de cor. E mesmo sendo uma das torcedoras mais apaixonadas que já conheci, nunca pisou em um estádio pra torcer pelo tricolor.
Tenho saudades das férias no sítio da vovó e das redações que escrevia ao voltar às aulas. O que sinto falta, na verdade, é do carinho da Dona Flor e do seu jeito guerreiro de encarar a vida. No domingo passado fui ao estádio e vi a rede balançar duas vezes. Gritei "gol!" e tenho certeza de que ela deve ter me escutado e comemorado comigo. Com o Grêmio, onde ela estiver. |