Isso não me pertence mais Se você se chama Andréa, Luciana, Paulo, Marcelo ou algum outro nome comum entre as crianças nascidas no início dos anos 70, é provável que não entenda o meu sentimento. Você já deve ter sido citado em muitos dos problemas matemáticos da segunda e terceira série. Talvez até já tenha sido personagem de uma redação feita por um colega.
Eu não. Nunca vi a uva como o Olavo. Nunca comprei dez laranjas e dei 6 para o Luizinho para depois a turma calcular com quantas eu ficava.
Gislaine não é um nome muito comum. Quando fiz vestibular, descobri que existiam muitas como eu, mas nenhuma de nós havia sido personagem numa novela da Globo, num seriado nacional, muito menos em algum programa humorístico.
Até que um dia o improvável aconteceu.
Gislaine passou a fazer parte de um dos quadros do Zorra Total, que passa aos sábados à noite na Rede Globo. Eu não vejo esse programa, mas um dia vi a atriz Fabiana Karla, que faz a personagem, sendo entrevistada pela Ana Maria Braga.
Pelo jeito, a moça é competente e a personagem é engraçada – uma espécie de professora para novos pobres, ou seja, quem tinha dinheiro e perdeu tudo. Se algum de seus alunos está querendo gastar como nos tempos afortunados, ela solta o bordão: “Isso não te pertence mais!”.
Aqui entre nós, ter o mesmo nome de uma personagem da TV não é bem um problema, poderia até ser uma honra. O irritante é a pronúncia da moça. Ela não fala “Gislãine”, como é a pronúncia de todas as Gislaines que eu conheço. Ela fala “Gislááááááine”.
Não sei se fala assim porque é recifense ou se é para ficar engraçado. O fato é que, em março passado, estava eu em Itacaré, sul da Bahia, bem feliz, curtindo umas férias, quando fui atropelada pela fama. Cada vez que eu me apresentava, alguém dizia: Ah, é “Gislááááááine”!
Foi então que decidi. De lá para cá, só me apresento pelo apelido. Desde que apareceu na TV, meu nome não me pertence mais. |