Encaixotando Gislaine A mudança começou. Não só a mudança da minha vida, mas a mudança da minha casa. Até segunda da semana que vem, preciso ter esvaziado todos os móveis e ter encaixotado todos os objetos que pretendo ficar e todos os que desejo doar a alguém.
E é aí que a questão complica. Como é que a gente consegue, tendo tempo apenas nos finais de semana, separar 20 anos de vida em apenas duas etiquetas: o que vai e o que fica?
Confesso que a minha primeira reação foi: fica quase nada. Vai quase tudo. Mas não é bem assim. Quando a gente encontra aquele recorte de jornal que mostra a mãe toda orgulhosa, na capa do jornal mais famoso do estado, a gente quer guardar pra sempre. Quando a gente encontra os bibelôs que os amigos trouxeram em viagens – e que não combinam em nada com a decoração, a gente quer ficar sim. E, então, o que vai fora? O que pode ser passado adiante?
Eu ainda não sei todas as respostas. Aos poucos estou separando o que irá comigo para Portugal, o que ficará na casa do meu pai e o que será doado ou vendido. No fundo, eu gostaria de ir com muito pouco e deixar menos ainda. Queria me livrar de todas as amarras que alguns objetos e recordações trazem. Ao mesmo tempo, eu não seria eu sem elas. E, portanto, a grande decisão será: quem eu quero levar? Quem eu quero ser lá fora? Gosto de quem sou aqui? Posso ser alguém melhor? Melhor para quem?
São muitas as perguntas neste texto. Deve ser por pensar tanto nelas que tenho andado tão cansada. É por saber que logo terei a resposta que sinto que o futuro vai ser tão interessante... |